Introdução
Depois de muitos anos sem um jogo realmente relevante do James Bond, 007 First Light chega carregando uma responsabilidade enorme. O último grande lançamento da franquia nos videogames não deixou exatamente boas lembranças, então existia uma certa desconfiança em torno desse novo projeto. Mas bastou a IO Interactive, responsável pela franquia Hitman, assumir o desenvolvimento para muita gente começar a prestar atenção.
E sinceramente? Faz bastante sentido. Hitman sempre teve muito daquela fantasia de espionagem, infiltração e improviso que combina perfeitamente com James Bond. A diferença aqui é que First Light tenta trazer tudo isso para um lado mais cinematográfico, claramente inspirado na fase do personagem interpretada por Daniel Craig.

O resultado é um jogo que acerta bastante em construir essa experiência de agente secreto moderno. Ele não reinventa a roda, nem tenta fazer algo revolucionário, mas entrega uma aventura divertida, estilosa e que entende muito bem o que faz James Bond funcionar.
História
A campanha começa já em um ritmo forte. Bond participa de uma missão na Islândia que rapidamente vira um desastre completo. Depois de um ataque inesperado, ele acorda sozinho em uma praia cercada de inimigos, sem entender direito o que aconteceu ou qual era o verdadeiro objetivo daquela operação.
Esse começo funciona muito bem porque consegue trazer aquele clima clássico dos filmes de 007. Tem mistério, tensão, infiltração e aquele sentimento constante de que existe algo maior acontecendo nos bastidores.
O mais interessante é que o jogo não tenta apresentar um Bond perfeito logo de cara. Aqui ele ainda é impulsivo, arrogante e claramente tem problemas em seguir ordens. Em vários momentos isso acaba gerando consequências dentro da própria narrativa, o que ajuda bastante a deixar o personagem mais humano.

A relação dele com a MI6 também é legal de acompanhar. Ver personagens clássicos como M e Moneypenny reaparecendo nessa nova interpretação ajuda a criar aquela familiaridade para quem já gosta da franquia há anos.
Outro ponto que gostei bastante foi o tom dos diálogos. O humor britânico aparece na medida certa, sem exageros, e o elenco consegue vender bem os personagens. Patrick Gibson surpreende como um Bond mais jovem e inexperiente, principalmente porque ele consegue equilibrar carisma e arrogância sem parecer forçado.
Agora, nem tudo funciona perfeitamente. A reta final da história provavelmente vai dividir bastante opinião. Sem entrar em spoilers, algumas decisões tomadas perto do encerramento parecem destoar do restante da campanha. Não chega a estragar toda a experiência, mas definitivamente é aquele tipo de final que muita gente vai terminar pensando “não sei se gostei disso”.
Mesmo assim, a campanha consegue prender do início ao fim. É uma história bem conduzida, com bom ritmo e duração ideal para esse tipo de jogo.
Gameplay
Se você já jogou Hitman antes, vai perceber rapidamente a influência aqui. Em vários momentos, 007 First Light parece quase uma evolução daquela fórmula adaptada para o universo do James Bond.
E honestamente? Isso funciona muito melhor do que eu imaginava.

A gameplay é bem variada e o jogo consegue misturar furtividade, ação e investigação de um jeito natural. As partes de infiltração são facilmente as melhores. Existe uma liberdade muito legal para explorar os ambientes, ouvir conversas, descobrir caminhos alternativos e decidir como você quer resolver cada situação.
Os gadgets de espionagem também ajudam bastante nisso. Você pode hackear dispositivos eletrônicos, desativar câmeras, criar distrações e até usar acessórios para deixar inimigos enjoados e tirá-los temporariamente do caminho. Tudo é muito simples de usar e bastante intuitivo.
Inclusive, em alguns momentos o sistema lembra bastante o hacking de Watch Dogs. Não pela profundidade, mas pela praticidade e pela forma como o jogo incentiva você a usar o cenário ao seu favor o tempo inteiro.

Agora, uma coisa que realmente me surpreendeu foi o combate corpo a corpo.
No começo ele parece relativamente simples, mas conforme você avança dá para perceber que existe uma complexidade bem maior ali. Você pode combinar golpes, esquivas, agarrões e até arremessar inimigos contra paredes ou objetos do cenário. As lutas acabam ficando muito mais dinâmicas do que eu esperava.
E o melhor é que os inimigos geralmente reagem bem durante esses confrontos. Eles tentam cercar você, pressionam em grupo e obrigam o jogador a realmente aprender o timing das esquivas. Se você sair apertando botão sem pensar, provavelmente vai apanhar.
As cenas de ação também são um destaque enorme. Em vários momentos o jogo lembra bastante produções como Uncharted 4: A Thief’s End ou até a fluidez de combate da série Batman: Arkham Knight. Tem perseguição, explosão, tiroteio, combate em ambientes destruindo ao redor… tudo muito bem dirigido.
E eu gostei bastante do fato de o jogo não transformar os tiroteios em algo totalmente arcade. A munição costuma ser limitada em várias partes, então você precisa usar gadgets, hackear equipamentos e improvisar durante os confrontos. Isso cria uma sensação de estratégia que combina muito com a proposta de espionagem.

Claro, existem alguns problemas. A dirigibilidade nas partes com veículos não é grande coisa e a mira pode parecer um pouco pesada até você se acostumar. Mas nada disso chega a comprometer a experiência.
No geral, é uma gameplay muito divertida e que consegue variar bastante ao longo da campanha sem ficar repetitiva.
Parte Técnica
Visualmente, 007 First Light é um jogo muito bonito na maior parte do tempo. A direção artística merece bastante elogio, principalmente nas missões maiores e nas sequências mais cinematográficas.
Iluminação, sombras e ambientação ajudam muito a vender essa sensação de filme de espionagem moderno. Existem momentos em que o jogo realmente parece uma produção interativa do James Bond.
Durante minhas cerca de 15 horas de campanha, eu sinceramente não encontrei nenhum bug grave. O máximo que aconteceu foram alguns objetos do cenário ficando presos no personagem em determinadas animações, algo pequeno e que não chegou nem perto de atrapalhar minha experiência.

Ainda assim, existem detalhes visuais que poderiam ser melhores. Algumas expressões faciais, cabelos e certos elementos de cenários externos acabam parecendo um pouco datados dependendo da situação.
Já a trilha sonora acerta em cheio. O jogo mistura músicas orquestrais clássicas com uma pegada mais moderna e cinematográfica que combina perfeitamente com o universo de 007.
Conclusão
007 First Light talvez não seja o jogo definitivo do James Bond que muita gente sonhava, mas ele definitivamente é um ótimo começo.
A IO Interactive conseguiu aproveitar muito bem sua experiência com Hitman para criar uma aventura de espionagem que faz sentido dentro do universo de Bond. E mesmo que a inspiração seja evidente o tempo inteiro, o jogo ainda consegue ter personalidade própria.

A campanha prende, a gameplay é variada, os gadgets funcionam bem, o combate surpreende positivamente e as sequências de ação conseguem entregar aquele clima clássico dos filmes.
O final pode dividir opiniões e existem alguns detalhes técnicos que poderiam ser mais refinados, mas no geral a experiência é muito positiva.
Para fãs de James Bond, espionagem ou até mesmo da estrutura moderna de Hitman, 007 First Light vale bastante a pena. Talvez não seja um jogo obrigatório para sair correndo no lançamento pagando preço cheio, mas certamente é uma aventura que merece atenção.