Redes e IA dominam o jogo: Game Pass não é o vilão da crise, diz ex-Square Enix

Redes e IA dominam o jogo: Game Pass não é o vilão da crise, diz ex-Square Enix

A indústria de videogames está passando por um momento de inflexão — não por causa do Game Pass, como muitos sugerem, mas por uma transformação mais profunda, impulsionada pelas redes e pela inteligência artificial. Essa é a visão de Jacob Navok, ex-diretor de negócios da Square Enix e atual CEO da Genvid, que vê o setor em um ponto de virada histórico.

Segundo Navok, as forças que antes sustentavam o mercado de games estão mudando de forma radical.

“A indústria era movida pela escassez de conteúdo. Você terminava Super Mario Bros. e passava direto para The Legend of Zelda. Mesmo com a evolução para experiências complexas e persistentes, como os MMOs, o modelo girava em torno da venda de jogos como produtos.

-relembra ele.

Plataformas em rede são o novo modelo dominante

Hoje, o cenário é outro. Jogos como Roblox, Fortnite e GTA Online não são apenas títulos de sucesso, mas plataformas sociais que capturam a atenção dos jogadores por tempo indeterminado. Essa mudança de foco, explica Navok, fez com que o conteúdo tradicional perdesse espaço — não por falta de qualidade, mas porque o tempo dos jogadores é finito.

“A competição agora é pelo tempo livre do jogador. E o tempo não aumentou. O TikTok já está tomando o lugar dos games casuais. Enquanto isso, os jogadores mais engajados estão envelhecendo.”

-conclui

Ele lembra que Yoichi Wada, ex-CEO da Square Enix, já previa esse movimento em 2004. Na época, muitos acreditavam que se tratava apenas de MMOs, mas Navok diz que hoje é evidente que a verdadeira transformação foi a criação de redes sociais centradas em jogos.

Medo de riscos e fracassos milionários

Com o novo panorama, as editoras também passaram a evitar riscos. Navok cita o caso de Concord, que foi encerrado apenas duas semanas após o lançamento em 2024, com prejuízo total de US$ 400 milhões após oito anos de desenvolvimento. Nunca vimos algo assim antes de 2024”, afirma.

O impacto é visível também em apostas recentes que falharam em gerar retorno. Jogos como MindsEye, Splitgate 2, FBC: Firebreak e Marathon consumiram quase US$ 1 bilhão em investimento conjunto, mas ainda não entregaram os resultados esperados.

“Todo mundo fala em corrigir bugs, mas quem realmente acredita que esses títulos conseguirão se manter vivos ou crescer?.”

-questiona.

O Game Pass não é o vilão

Apesar das críticas recorrentes, Navok rejeita a ideia de que o Game Pass seja o responsável pelas dificuldades da indústria. Para ele, o serviço da Microsoft tem sido superestimado como fator de crise.

“Não se enganem. Os problemas enfrentados pelo setor não vêm do Game Pass, que sequer teve crescimento relevante nos últimos anos.”

-explica.

O verdadeiro catalisador, segundo ele, é a ascensão das plataformas que retêm os jogadores por longos períodos, o que torna o modelo tradicional — focado na venda de jogos como produtos — cada vez menos eficaz.

Inteligência artificial e a nova ordem digital

Na visão de Navok, a virada mais impactante ainda está por vir: a consolidação da inteligência artificial como a espinha dorsal da próxima era do entretenimento digital.

“A IA é uma revolução que acontece apenas uma vez por geração. Ele prevê um futuro em que os jogadores simplesmente descrevem o tipo de experiência que desejam e a IA entrega o resultado, cruzando os limites entre jogos, redes sociais e tecnologia.”

-afirmou

Nesse novo paradigma, o valor maior será gerado nas plataformas que concentram usuários e desenvolvedores — e que conseguem manter ambos por mais tempo. Navok acredita que empresas como Microsoft e Sony estão sendo forçadas a mudar suas estratégias para evitar ficarem presas ao papel de “apenas” produtoras de conteúdo.

“Quem não criar uma plataforma engajante, como Fortnite, vai ficar para trás.”

Jogos tradicionais não estão mortos, mas precisam lutar por espaço

Por fim, Navok não decreta o fim dos jogos clássicos, mas alerta que sua relevância está ameaçada pela disputa intensa pelo tempo do jogador. Nem mesmo superproduções como Death Stranding 2: On the Beach conseguem, hoje, garantir um grande público com base apenas em qualidade técnica.

O futuro dos games não será ditado por catálogos como o Game Pass, mas pelas redes e pela IA. O que está em jogo agora é a capacidade das empresas de construir ecossistemas vivos, onde os jogadores queiram permanecer — e não apenas consumir. O tempo, mais do que o dinheiro, virou a moeda mais disputada da indústria.