Introdução: A primeira impressão engana
Quando eu vi o manual e aquela estética de cartucho retrô, já bateu aquela nostalgia gostosa. A Devolver Digital é mestre em fazer a gente comprar a ideia antes mesmo de jogar, e com Dark Scrolls não foi diferente. O humor ácido, as piadas internas e a história de amizade que motivou a criação do jogo me conquistaram de cara. A proposta de recriar aquelas noites de jogatina com os amigos, mesmo que online, é linda. Só que, como eu logo descobri, a estética charmosa esconde um jogo que não tem a menor pena de você.

História: Meio tanto faz, mas o sentimento é legal
Olha, vou ser sincero: a história do jogo em si é só um pano de fundo. Tem montanha, castelo, lua, chefes pra bater… o básico do básico. O que realmente me pegou foi a motivação dos desenvolvedores. Saber que o jogo nasceu da saudade que o diretor sentia de jogar com a amiga Britt deu um peso emocional que vai além da tela. É quase como se cada partida online fosse uma homenagem a isso. Mas, se você está esperando uma narrativa complexa ou reviravoltas, pode esquecer – aqui o negócio é gameplay e diversão (ou frustração, dependendo do dia).

Mecânicas e Gameplay: O amor e o ódio andam de mãos dadas
Agora vamos ao que interessa: a jogabilidade. E aqui eu vou ser 100% sincero com você.
O sistema de Perks é, de longe, a parte mais genial do jogo. A ideia de você encher uma barra de estrelas, ativar poderes e poder resetar tudo com o especial para ciclar os efeitos é viciante. Quando você consegue ativar fogo, veneno e tiro duplo ao mesmo tempo, a tela fica um caos e você se sente um deus. É recompensador, e é por isso que o loop de jogo prende.

MAS… e aqui vem o grande “porém” da minha experiência. Apesar de todo esse brilho, eu achei a jogabilidade travada. E não é frescura minha, não. Vamos falar do pulo duplo: em vez de ser um recurso limpo pra te reposicionar no ar, ele sempre vem com uma ação extra forçada. Por exemplo, se você está com o personagem que arremessa picaretas/machados, o pulo duplo já engata um ataque. Isso parece legal no papel, mas na prática, quando você está no meio de um tiroteio frenético e precisa pular numa plataforma minúscula, o boneco resolve fazer uma firula e te joga no buraco. Perdi várias tentativas por causa disso, e confesso que me deu uma raiva danada.
Além disso, a transição entre as plataformas durante os tiroteios é estranha. Mesmo sendo um run and gun, eu senti que a movimentação não flui tão bem quanto em outros jogos do gênero. Você está atirando, tentando desviar, mas a troca de plataformas parece quebrar o ritmo. É aquela sensação de que o jogo está lutando contra você, e não contra os inimigos.
Dificuldade e Progressão: Isso aqui não é para qualquer um
E é justamente nesse ponto que eu preciso dar um alerta. Dark Scrolls é difícil. Não é aquele difícil gostoso que te faz tentar de novo porque você melhorou; é um difícil que muitas vezes te puni por capricho.
Você pode comprar Perks durante a fase para facilitar a vida, mas adivinha? Não adianta sair comprando qualquer um. Você precisa de estratégia. Para derrotar os chefes finais, ou você monta um combo específico (como ataques de fogo para dano contínuo ou ataques duplos para estourar o DPS) ou você simplesmente não passa. E o pior: não existem facilitações permanentes que reduzam a dificuldade com o tempo. Sabe aquela evolução gostosa dos rogue-lites casuais, onde você vai ficando mais forte entre as partidas? Aqui isso não existe.

Isso faz com que o jogo seja um prato cheio para fãs de rogue-like raiz, que curtem sofrer e dominar as mecânicas na marra. Mas, sinceramente? Acho que isso pode afastar muita gente que, como eu, curte um rogue-lite mais tranquilo para relaxar depois do trabalho. Se você não tem paciência para morrer 30 vezes seguidas no mesmo chefe porque o pulo duplo te pregou uma peça, talvez esse jogo não seja para você.
Personagens: O ponto alto que salva a experiência
Agora, vou dar o braço a torcer: o elenco de personagens é sensacional. Desbloquear cada um deles foi a parte mais motivadora do jogo para mim.
Grizz é realmente o “coringa” e quem eu recomendo para todo mundo começar. Mas a graça está em descobrir os outros. Libertar o Biscuit, o cachorro, no primeiro chefe foi uma surpresa divertida. E quando eu consegui completar a Lua e desbloquear o Saturn, o alienígena, eu me senti o rei do pedaço – voar pelo ar com aquela metralhadora alienígena é gratificante.

Cada herói tem uma personalidade e um estilo de jogo tão único que vale a pena tentar todos, nem que seja para entender qual se encaixa melhor no seu modo de jogar. O Nezumi, o bardo rato, tem um sistema de magia baseado em saxofone que é totalmente louco e me lembrou jogos como Crypt of the NecroDancer – prova de que a Doinksoft teve criatividade de sobra aqui.
Conclusão: Veredito com o coração na mão
No fim das contas, eu recomendo Dark Scrolls? Sim, mas com ressalvas.
Se você é fã hardcore de rogue-like, curte desafios extremos e tem paciência para aprender os macetes de cada personagem e os combos de Perks na raça, pode comprar sem medo. Você vai se viciar, vai passar horas tentando e vai se sentir realizado quando finalmente zerar.

Agora, se você é como eu, que gosta de uma evolução mais suave e não tem saco para jogabilidade “travada” (principalmente por causa daquele pulo duplo que mais atrapalha que ajuda), talvez seja melhor esperar uma promoção ou pensar duas vezes. A diversão está lá, sim, mas ela vem acompanhada de uma boa dose de frustração. Não é um jogo para “qualquer um”, e a Devolver não fez questão de esconder isso – o que, convenhamos, é bem típico deles.
Joguei muito, me estressei, mas também me diverti horrores com os amigos online. No fim, o jogo cumpre o que promete: recria aquela sensação de jogatina nostálgica. Só não espere que ele vai te pegar pela mão. Aqui, ou você se vira, ou morre tentando – e acredite, você vai morrer bastante.
Chave de jogo fornecida pela Devolver