Documentos recém-divulgados conectam Bobby Kotick a discussões sobre monetização em Call of Duty que circularam no entorno de Jeffrey Epstein, reacendendo debates sobre ética e governança corporativa.
Uma nova leva de documentos associados aos chamados arquivos Epstein voltou a provocar repercussão pública, desta vez atingindo diretamente a indústria dos videogames. Registros tornados públicos recentemente indicam que Bobby Kotick, ex-CEO da Activision Blizzard, participou de discussões sobre estratégias de microtransações da franquia Call of Duty em uma cadeia de e-mails que acabou envolvendo Jeffrey Epstein. De acordo com o material revelado, a conversa teve início entre Kotick e Pablos Holman, inventor e investidor ligado a projetos de inovação tecnológica. Posteriormente, Holman teria encaminhado o conteúdo das mensagens a Epstein, inserindo o financista em uma troca que tratava de modelos de monetização aplicados a jogos de grande alcance.
Nos e-mails, Holman demonstra apoio explícito às ideias discutidas, elogiando a forma como Kotick relacionava eventos do mundo real a itens virtuais comercializados dentro dos jogos. Um dos pontos que mais chamou atenção foi a defesa da introdução de conceitos econômicos para crianças por meio de mecânicas de monetização, argumento frequentemente utilizado por defensores de microtransações como forma de “educação financeira”. Embora a troca de mensagens não indique qualquer participação direta de Epstein no desenvolvimento ou nas decisões estratégicas da Activision Blizzard, o simples fato de seu envolvimento indireto no debate gerou desconforto. Analistas e usuários apontam que a proximidade, ainda que circunstancial, levanta questionamentos sobre critérios de interlocução e sobre a normalização de diálogos com figuras altamente controversas do mundo financeiro.
Sugestões de investimento e Call of Duty: Black Ops 4
Outros documentos associados ao mesmo conjunto de arquivos também trouxeram à tona e-mails datados de 2018. Neles, conselheiros ligados a Jeffrey Epstein teriam sugerido a compra de ações da Activision Blizzard pouco antes do lançamento de Call of Duty: Black Ops 4. O principal argumento apresentado era o potencial comercial do modo battle royale, que à época surgia como uma tendência dominante no mercado. Esse tipo de recomendação reforça a percepção de que Epstein e seu círculo acompanhavam de perto movimentos estratégicos da indústria de entretenimento digital, não apenas como consumidores, mas como investidores atentos a oportunidades de valorização rápida no mercado financeiro. O reaparecimento do nome de Epstein em um contexto ligado aos videogames também reacendeu lembranças de episódios anteriores. Em 2013, ele foi banido da Xbox Live após ter sido incluído no registro de criminosos sexuais dos Estados Unidos. A Microsoft havia iniciado, ainda em 2012, uma política mais rígida de bloqueio de contas associadas a esse tipo de condenação, o que levou ao desligamento do serviço.
Esse histórico contribui para o impacto simbólico da revelação atual. Mesmo sem evidências de influência direta nas decisões da Activision, a associação indireta com estratégias de monetização amplamente criticadas ao longo dos anos amplia o desconforto em torno do tema. Do ponto de vista factual, os documentos não apontam irregularidades legais nem interferência operacional de Epstein nos rumos da Activision Blizzard. Ainda assim, a revelação adiciona um novo componente ao debate sobre ética corporativa, transparência e responsabilidade na condução de negócios bilionários voltados a um público majoritariamente jovem. O episódio também expõe um ponto cego comum em grandes corporações: a falta de critérios claros sobre com quem executivos de alto escalão escolhem dialogar, especialmente quando o assunto envolve práticas controversas como microtransações e monetização agressiva.
