Funcionários de QA da Blizzard em Albany e Austin aprovam contrato histórico com a Microsoft após quase três anos de negociações

Funcionários de QA da Blizzard em Albany e Austin aprovam contrato histórico com a Microsoft após quase três anos de negociações

Acordo sindical garante aumentos salariais, limites ao crunch, regras para uso de IA e maior estabilidade em uma das áreas mais precarizadas da indústria de games.


A maioria dos trabalhadores de controle de qualidade (QA) dos estúdios da Blizzard Entertainment em Albany (Nova York) e Austin (Texas) aprovou oficialmente um novo contrato sindical com a Microsoft, encerrando um processo de negociação que se estendeu por quase três anos. A confirmação veio por meio do Communications Workers of America (CWA), sindicato que representa os funcionários das duas unidades. Segundo o CWA, a votação foi amplamente favorável, refletindo um consenso raro em uma área historicamente marcada por alta rotatividade, baixos salários e pouca segurança profissional. O contrato tem validade de três anos e estabelece uma série de mudanças estruturais que vão além de reajustes salariais, abordando temas sensíveis como uso de inteligência artificial, horas extras obrigatórias, reconhecimento profissional e proteção contra demissões arbitrárias.

O novo acordo é considerado significativo porque atinge diretamente um dos setores mais vulneráveis da indústria de jogos. Profissionais de QA costumam ser tratados como mão de obra temporária, frequentemente terceirizada e descartável após o lançamento de grandes projetos. O contrato aprovado tenta romper com essa lógica. Entre os principais pontos do acordo estão:

  • Aumentos salariais garantidos ao longo dos três anos, reduzindo a defasagem histórica entre QA e outras áreas do desenvolvimento
  • Limites claros para horas extras obrigatórias, atacando o problema crônico do crunch
  • Regras específicas para o uso de IA generativa, evitando que ferramentas automatizadas sejam usadas para substituir ou desvalorizar o trabalho humano
  • Proteções mais fortes de créditos, assegurando que os profissionais de QA sejam devidamente reconhecidos nos projetos em que atuam

Esses pontos são particularmente relevantes em um momento em que grandes publishers discutem abertamente o uso de IA para automatizar testes e reduzir custos, muitas vezes sem transparência ou diálogo com os trabalhadores.

Inclusão, imigração e estabilidade no emprego

O contrato também avança em áreas que raramente recebem atenção em acordos do setor de games. Ele inclui acomodações razoáveis para pessoas com deficiência, além de novas proteções para trabalhadores imigrantes, um tema sensível nos Estados Unidos. Essas cláusulas buscam evitar punições injustas, perda de senioridade ou demissões ligadas a processos burocráticos de verificação de trabalho. Além disso, o acordo torna esses processos mais claros e menos punitivos, reduzindo a insegurança jurídica para parte significativa da força de trabalho. Outro ponto importante é a criação de mecanismos de proteção contra demissões em massa, incluindo direitos de recontratação, algo extremamente raro para QA. Na prática, isso transforma a função em algo mais próximo de uma carreira estável, e não apenas um “emprego descartável de projeto”. Para muitos funcionários, esse é o aspecto mais transformador do acordo. Matt Gant, analista sênior de QA na Blizzard Austin e membro da CWA, resumiu bem esse sentimento ao afirmar que o contrato muda a percepção do que significa trabalhar com QA na indústria.

Segundo Gant, após quase duas décadas atuando em videogames, aprovar um contrato coletivo justo representa a possibilidade real de enxergar o QA como uma profissão sustentável a longo prazo, com salário digno, benefícios e previsibilidade. Ele também destacou que as novas proteções contra demissões e os direitos de recontratação ajudam a consolidar o QA como uma área respeitada, algo que historicamente foi negado dentro de grandes estúdios. O presidente da CWA, Ron Swaggerty, enfatizou que a decisão de negociar de forma conjunta entre os estúdios de Albany e Austin foi estratégica. Segundo ele, a articulação entre equipes geograficamente distintas ampliou o poder de barganha e impediu que a empresa fragmentasse as negociações.

“Os trabalhadores da indústria de games continuam mostrando o que a organização sindical e a negociação coletiva podem conquistar em 2026 e nos anos seguintes”, afirmou Swaggerty.

O contrato cobre mais de 60 funcionários em diferentes cargos de QA, mas seu impacto simbólico vai muito além desse número. Ele se soma a um movimento crescente de sindicalização na indústria de games, especialmente após a aquisição da Activision Blizzard pela Microsoft, que adotou uma postura publicamente mais aberta à negociação coletiva, ainda que sob forte pressão política e social.