O Natal já não salva o negócio de games da Microsoft e isso diz muito mais sobre estratégia do que sobre “ciclo de mercado”
Os resultados financeiros da Microsoft para o segundo trimestre do ano fiscal de 2026 deixam pouco espaço para interpretações otimistas quando o assunto é Xbox. A divisão de jogos voltou a encolher, justamente no período historicamente mais forte do calendário, algo que deveria acender um alerta sério dentro da empresa. A receita total do segmento de games caiu 9% na comparação anual. O golpe mais duro, mais uma vez, veio do hardware, com queda de 32%, refletindo vendas fracas do Xbox Series X|S. Até aqui, nada surpreendente: consoles mais antigos, menor apelo e competição consolidada explicam parte do recuo. O problema real está em outro lugar. O segmento de Conteúdo e Serviços, que inclui Game Pass, vendas digitais e jogos first-party, caiu 5%. Esse dado é crítico porque contradiz a principal tese estratégica da Microsoft nos últimos anos: a de que o Xbox deixaria de depender de hardware e passaria a viver de serviços e catálogo.
A própria empresa reconhece que a queda não veio do crescimento do Game Pass, mas sim de uma performance mais fraca de conteúdos first-party em relação ao ano anterior. Traduzindo: o Call of Duty deste ano não teve o mesmo impacto que Black Ops 6, que havia inflado artificialmente a base de comparação. Aqui está o ponto cego que muitos ignoram: a Microsoft apostou pesado na ideia de que grandes aquisições resolveriam o problema de cadência e impacto criativo. Os números mostram que isso não se sustenta automaticamente no balanço. Ter IPs gigantes não garante picos constantes de receita se o consumo estiver se diluindo entre serviços, promoções e assinaturas.
O pior trimestre de fim de ano da história do Xbox
O dado mais revelador não é a queda anual, mas o desempenho sequencial. O trimestre de outubro a dezembro, tradicionalmente o motor de crescimento do Xbox, registrou um aumento de apenas US$ 450 milhões em relação ao trimestre anterior. Para efeito de comparação:
- 2023: +US$ 3,19 bilhões
- 2020: +US$ 1,94 bilhão (lançamento de consoles)
- 2019: +US$ 785 milhões
- 2025: +US$ 450 milhões
É o pior salto de fim de ano desde 2014, quando a Microsoft começou a divulgar os números do Xbox separadamente. Isso não é ruído estatístico, é tendência. Do crescimento modesto de 2025, US$ 306 milhões vieram de hardware e apenas US$ 144 milhões de Conteúdo e Serviços. Ou seja, mesmo em um cenário fraco, foi o console físico que “salvou” o trimestre. Exatamente o oposto do discurso estratégico da empresa. Outro dado incômodo: o melhor trimestre de Conteúdo e Serviços não foi o de festas, mas jan–mar.
- Jan–Mar 2025: ~US$ 5,39 bilhões
- Abr–Jun 2025: ~US$ 5,26 bilhões
- Jul–Set 2025: ~US$ 5,13 bilhões
- Out–Dez 2025: ~US$ 5,27 bilhões
Isso sugere algo preocupante: o consumo digital do Xbox está entrando em maturidade precoce. Assinaturas estabilizam, gastos médios param de crescer e grandes lançamentos já não geram picos claros, apenas redistribuem receita ao longo do ano. Aqui vai o desafio que a Microsoft ainda não resolveu: Game Pass reduz volatilidade, mas também reduz explosão de receita. É ótimo para previsibilidade, péssimo para impressionar investidores quando o mercado espera crescimento acelerado.
- O contraste é brutal. No consolidado, a Microsoft teve um trimestre excelente:
- Receita total: US$ 81,3 bilhões (+17%)
- Lucro líquido: US$ 30,9 bilhões (+23%)
Windows, cloud e enterprise carregam o crescimento. O Xbox, cada vez mais, parece irrelevante financeiramente para o grupo, mesmo sendo relevante estrategicamente para marca, ecossistema e presença cultural. Isso levanta uma pergunta incômoda, que poucos querem fazer: até quando a Microsoft vai tolerar um negócio que cresce menos, rende menos e exige investimentos bilionários constantes?
