Estúdio afirma que problemas históricos de organização e perda de conhecimento técnico prejudicaram projetos anteriores e levaram a mudanças profundas na produção.
A CD Projekt Red acredita ter encontrado uma das principais soluções para evitar que The Witcher 4 e Cyberpunk 2 enfrentem os mesmos problemas turbulentos que marcaram o desenvolvimento de Cyberpunk 2077. Curiosamente, a mudança central não envolve gráficos, inteligência artificial ou design de gameplay, mas sim algo muito mais estrutural: a forma como o estúdio documenta e compartilha conhecimento técnico internamente. Durante um painel realizado no Digital Dragons, os especialistas em documentação técnica Jarosław Ruciński e Adrian Fulneczek detalharam como a empresa historicamente negligenciou a preservação formal de processos, sistemas e soluções desenvolvidas ao longo de seus projetos. Segundo eles, isso criou um acúmulo de problemas que só ficou evidente anos depois.
Ruciński explicou que, durante o desenvolvimento de The Witcher e The Witcher 2: Assassins of Kings, praticamente ninguém pensava na preservação de conhecimento técnico de longo prazo. O resultado foi que boa parte das informações daquele período simplesmente se perdeu com o tempo. O impacto ficou evidente quando a empresa iniciou os trabalhos em The Witcher Remake e percebeu que quase não existia documentação utilizável dos sistemas originais. Segundo o executivo, o projeto só conseguiu avançar porque a Fool’s Theory, co-desenvolvedora do remake, conta com vários veteranos da própria CD Projekt Red. Esses profissionais carregavam consigo o chamado “conhecimento tribal”, ou seja, informações técnicas preservadas apenas na memória de antigos desenvolvedores, e não em registros organizados.
O problema atingiu uma escala ainda maior durante a produção de Cyberpunk 2077. Fulneczek descreveu o RPG futurista como uma “empreitada massiva” que praticamente recomeçou muitos processos do zero dentro do estúdio. Para tentar organizar a produção, a equipe passou a utilizar o Confluence como sistema de “documentação viva”, mas a iniciativa rapidamente saiu do controle. Mais de oito mil páginas foram criadas, e conforme o projeto crescia, manter tudo atualizado deixou de ser prioridade. A situação se tornou ainda mais caótica durante a produção da expansão Cyberpunk 2077: Phantom Liberty. Parte da documentação foi migrada para uma instância em nuvem enquanto outros arquivos continuaram nos servidores locais da empresa. Segundo Fulneczek, isso criou um ambiente fragmentado, com documentos duplicados e pouca integração entre os sistemas. O executivo afirmou que essa desorganização dificultava não apenas o trabalho das equipes internas, mas também o suporte a parceiros terceirizados.
O impacto operacional acabou refletindo inclusive no desgaste das equipes. Fulneczek sugeriu que a fragmentação da documentação contribuiu diretamente para situações de burnout, já que encontrar informações confiáveis dentro do projeto se tornou algo extremamente difícil. Como resposta, a CD Projekt Red implementou mudanças estruturais profundas para seus próximos jogos. A principal delas é que toda a documentação agora funciona como um ativo compartilhado entre diferentes equipes e projetos da empresa, inclusive entre escritórios localizados em fusos horários distintos. Além disso, manter registros atualizados deixou de ser opcional. A documentação passou a ser um requisito obrigatório para que qualquer equipe avance entre as etapas internas de desenvolvimento, incluindo fases como pré-produção, alpha, beta e lançamento.
Segundo Ruciński, o novo sistema também permite que soluções criadas para um projeto sejam reaproveitadas em outros jogos da empresa. Na prática, isso significa que avanços técnicos encontrados em The Witcher 4 podem beneficiar diretamente Cyberpunk 2 e vice-versa, evitando retrabalho e acelerando processos internos. A conclusão dos executivos foi clara: a CD Projekt Red considera que aprendeu lições importantes após os problemas enfrentados em Cyberpunk 2077. Agora, o estúdio tenta transformar organização interna e compartilhamento de conhecimento em pilares centrais para sustentar a próxima geração de seus RPGs AAA.
Fonte: GamesRadar+
