Resultados recentes revelam um desequilíbrio curioso entre a atividade principal da empresa e sua crescente atuação no mercado financeiro.
A Koei Tecmo vem chamando atenção não exatamente por seus lançamentos, mas pela forma como tem gerado lucro. De acordo com dados destacados pelo Kanpo Blog, perfil no X especializado na análise de empresas japonesas listadas em bolsa, a companhia registrou, nos últimos três trimestres fiscais, um lucro não operacional de 16,528 bilhões de ienes, superando os 14,5 bilhões de ienes obtidos diretamente com o desenvolvimento e a publicação de jogos. Esse descompasso entre o core business e os ganhos financeiros rapidamente virou assunto nas redes sociais. Parte do público passou a se referir à Koei Tecmo de forma irônica como uma “empresa de investimentos disfarçada de desenvolvedora de jogos”, uma provocação que encontra respaldo nos números e na própria estrutura interna da companhia.
A leitura ganha ainda mais força quando se observa a atuação de Keiko Erikawa, presidente da Koei Tecmo e figura amplamente reconhecida no Japão por sua habilidade em finanças. Erikawa supervisiona pessoalmente a gestão de cerca de 120 bilhões de ienes em fundos de investimento, o equivalente a aproximadamente 750 milhões de euros, um volume expressivo mesmo para padrões de grandes conglomerados. Esse protagonismo ficou ainda mais evidente em fevereiro de 2025, quando Erikawa assumiu oficialmente o cargo de CEO da Koei Tecmo Corporate Finance, subsidiária criada especificamente para centralizar e profissionalizar as operações financeiras do grupo. Embora esse movimento tenha intensificado a visibilidade da estratégia, ele não representa uma guinada repentina. A empresa já mantém, há anos, atividades financeiras paralelas ao desenvolvimento de jogos.
Investimentos crescem, mas os jogos seguem como vitrine
Apesar do peso crescente do setor financeiro nos resultados, a Koei Tecmo não abandonou sua atuação tradicional no mercado de games. Pelo contrário, parte do discurso entre fãs sugere que os bons resultados fora dos jogos estariam, indiretamente, viabilizando orçamentos mais confortáveis e maior estabilidade criativa para seus estúdios internos. Nas redes sociais, não é incomum encontrar comentários agradecendo à própria Erikawa, apelidada de forma bem-humorada de “Imperatriz”, pela qualidade de produções recentes como Dynasty Warriors: Origins, frequentemente citado como exemplo de um projeto que se beneficiou de investimentos mais robustos.
O pipeline da Koei Tecmo reforça a ideia de que o desenvolvimento de jogos continua sendo parte central da identidade da empresa, ainda que não seja atualmente sua principal fonte de lucro. Entre os lançamentos mais aguardados estão Nioh 3, novo projeto da Team Ninja, e Pokémon Pokopia, descrito como o primeiro simulador de vida da franquia Pokémon, uma aposta que foge do padrão tradicional da série. O caso da Koei Tecmo expõe uma tensão interessante dentro da indústria japonesa de games. Enquanto muitas empresas lutam para manter margens saudáveis em um mercado cada vez mais competitivo e caro, a Koei Tecmo encontrou nos investimentos financeiros uma fonte de estabilidade e crescimento. A questão que permanece em aberto é até que ponto essa lógica pode se sustentar sem diluir o foco criativo que construiu a reputação da empresa ao longo de décadas.
