Encerramento precoce do shooter da Sony reacende discussões sobre preservação digital e transparência no modelo de games como serviço
O colapso comercial de Concord, shooter multijogador da Sony Interactive Entertainment, ultrapassou o campo dos videogames e chegou ao cenário político internacional. O título, que teve seus servidores desligados apenas 15 dias após o lançamento, foi citado como um exemplo emblemático durante um debate no Parlamento do Reino Unido sobre a necessidade de reforçar as proteções ao consumidor e promover uma preservação digital mais justa para jogos online. Durante a sessão, um dos parlamentares destacou o caso de forma direta:
“Um exemplo recente é Concord, um jogo lançado para PlayStation 5 e Windows em agosto de 2024. Após um lançamento decepcionante, a Sony Interactive Entertainment tomou uma decisão comercial de fechá-lo. Para o crédito deles, todos os compradores foram reembolsados, mas nem sempre é este o caso”.
A menção oficial refletiu a crescente preocupação do governo britânico com a falta de garantias oferecidas aos jogadores que investem em títulos dependentes de servidores.
Debate político e impacto econômico do setor
O debate foi conduzido pelo MP Ben Goldsborough, parlamentar que tem se destacado por defender maior responsabilidade corporativa no setor de jogos digitais. Em sua fala, Goldsborough ressaltou o peso econômico da indústria no Reino Unido, que movimenta cerca de £7,6 bilhões e emprega mais de 75 mil pessoas. Segundo ele, a prática de encerrar servidores sem aviso prévio compromete não apenas a confiança do consumidor, mas também o valor cultural e social dos jogos.
“Quando um jogo é fechado sem aviso, todo o investimento de tempo, esforço, imaginação e amizade é perdido”, afirmou o parlamentar, em referência ao impacto emocional e social que o fim abrupto de um jogo pode causar nas comunidades online.
Além de Concord, outros títulos foram lembrados no debate, como The Crew, da Ubisoft, e Anthem, da BioWare, este último com servidores programados para desligar no início de 2026, tornando o jogo injogável após o encerramento. Esses exemplos reforçaram a argumentação do movimento Stop Killing Games, grupo de consumidores que luta pela preservação de jogos e pela proteção do direito de acesso contínuo a produtos digitais comprados legalmente. Os defensores do movimento sustentam que os jogadores devem ter garantias mínimas de uso ou acesso offline quando um título online é descontinuado. O grupo vem pressionando autoridades e reguladores em diversos países a criarem normas específicas para jogos que dependem de conexão constante, especialmente os Games as a Service (GaaS).
Nova legislação e desafios regulatórios
O debate também abordou a Digital Markets, Competition and Consumers Act 2024, nova legislação britânica que exige que empresas forneçam informações claras sobre a durabilidade e funcionalidade de produtos digitais no momento da venda. Apesar de representar um avanço em termos de transparência, a lei não inclui dispositivos específicos para lidar com o encerramento de serviços online, o que limita sua aplicação direta em casos como o de Concord. Mesmo com o forte sentimento pró-consumidor manifestado pelos parlamentares, o governo britânico declarou que não pretende modificar as leis atuais para tratar especificamente do problema dos jogos como serviço.
Ainda assim, a menção de Concord no Parlamento reforça um alerta global: a indústria de jogos enfrenta um ponto de inflexão, em que a preservação digital e os direitos dos consumidores tornam-se temas tão relevantes quanto as próprias inovações tecnológicas do setor.
Fonte: Eurogamer
