Review | Pragmata

Review | Pragmata

Review | Pragmata é uma estreia ousada da Capcom que combina ação, hacking e ficção científica com personalidade

Pragmata representa uma das apostas mais interessantes da Capcom nos últimos anos. Em vez de recorrer a uma de suas franquias já consolidadas, a empresa entrega uma nova propriedade intelectual com identidade própria, ambientação marcante e uma proposta de gameplay que tenta fugir do convencional dentro dos jogos de ação em terceira pessoa.

O resultado é um jogo de ficção científica que combina combate, exploração e hacking em tempo real de forma bastante criativa. Pragmata não reinventa completamente o gênero, mas encontra uma mecânica central forte o bastante para sustentar sua campanha e diferenciar a experiência de outros shooters modernos.

A aventura acompanha Hugh, um astronauta enviado para investigar uma instalação lunar que perdeu contato com a Terra. Após um desastre na base, ele passa a depender de Diana, uma androide com aparência infantil e capacidades avançadas de invasão de sistemas. A partir dessa parceria, o jogo constrói sua principal força: a união direta entre narrativa e gameplay.

Uma nova franquia com identidade própria

Um dos maiores méritos de Pragmata é a sensação de novidade. A Capcom poderia ter seguido por um caminho mais seguro, criando um jogo de ação futurista tradicional, mas optou por uma estrutura que mistura ficção científica, combate tático e resolução rápida de pequenos quebra-cabeças durante as batalhas.

A ambientação lunar é um dos pontos altos da experiência. A base onde a campanha se passa combina corredores industriais, setores científicos, áreas artificiais e regiões que simulam ambientes terrestres. A ideia do Luna Filamento, tecnologia capaz de reconstruir estruturas em larga escala, ajuda a dar coerência ao universo e reforça o tom de ficção científica do jogo.

Visualmente, Pragmata tem bons momentos. Algumas áreas se destacam pela direção artística, especialmente quando o jogo sai dos corredores metálicos e apresenta espaços mais abertos ou ambientes que contrastam tecnologia com natureza artificial. Ainda assim, parte da campanha sofre com certa repetição visual, principalmente nas seções internas da estação, que poderiam apresentar maior variedade estética.

O sistema de combate é o grande diferencial

O ponto mais forte de Pragmata está no combate. À primeira vista, o jogo parece seguir a fórmula de um shooter em terceira pessoa tradicional, com movimentação, mira, esquiva, gerenciamento de armas e pontos fracos nos inimigos. Porém, a presença de Diana altera completamente a dinâmica das batalhas.

Os inimigos são altamente resistentes até serem hackeados. Para isso, o jogador precisa resolver, em tempo real, um pequeno puzzle em grade enquanto continua atento ao campo de batalha. Esse sistema obriga o jogador a dividir a atenção entre posicionamento, leitura de ataques, escolha de alvo e execução rápida do hacking.

Essa mecânica poderia se tornar repetitiva com facilidade, mas Pragmata consegue evoluí-la de maneira satisfatória. Ao longo da campanha, novas variações de inimigos, obstáculos nas grades de hacking, efeitos especiais e nodos de habilidade tornam os confrontos mais estratégicos. O jogador não está apenas atirando: ele precisa preparar o inimigo, abrir janelas de vulnerabilidade e aproveitar corretamente cada oportunidade de dano.

O arsenal também contribui para essa sensação de impacto. As armas têm funções claras, e o jogo incentiva a alternância entre elas de acordo com a situação. Armas de curto alcance, disparos carregados, opções de controle de multidão e equipamentos mais pesados ajudam a criar uma boa variedade dentro dos combates.

O mérito principal está na forma como tudo se conecta. O hacking não é uma mecânica paralela, mas o centro do combate. Sem Diana, Hugh praticamente não consegue vencer. Isso torna a parceria entre os personagens relevante não apenas para a história, mas também para o funcionamento básico da gameplay.

Diana é o coração do jogo

Diana é, sem dúvida, o elemento mais carismático de Pragmata. A personagem funciona tanto como ferramenta de gameplay quanto como eixo emocional da narrativa. Sua curiosidade sobre a Terra, suas interações no abrigo e sua relação crescente com Hugh ajudam a dar humanidade a uma história que poderia facilmente se limitar a clichês de inteligência artificial fora de controle.

A dinâmica entre Hugh e Diana funciona justamente porque o jogo faz o jogador depender dela constantemente. Diana hackeia inimigos, auxilia na exploração, participa das batalhas e ganha novas funções ao longo da campanha. Com isso, a conexão entre os dois não se limita às cutscenes. Ela é reforçada o tempo inteiro pela própria estrutura do jogo.

Apesar disso, a narrativa nem sempre desenvolve seus temas com a mesma força de sua jogabilidade. O conceito da base lunar, a origem de Diana, os limites éticos da tecnologia e a própria ameaça da inteligência artificial Eidos possuem potencial para uma discussão mais profunda. Em vários momentos, essas ideias aparecem mais como pano de fundo do que como parte central do drama.

Hugh também é um protagonista funcional, mas não especialmente memorável. Ele cumpre bem o papel de figura protetora e sobrevivente, mas a força emocional da história vem muito mais de Diana e da relação que ela constrói com ele do que da personalidade do próprio protagonista.

Design de fases e ritmo de campanha

Pragmata adota uma estrutura relativamente linear, mas com áreas que incentivam exploração lateral. O jogador encontra recursos, coletáveis, melhorias, portas bloqueadas, caminhos opcionais e zonas de combate mais desafiadoras. Essa abordagem funciona bem porque recompensa a curiosidade sem transformar o jogo em uma experiência inchada.

As fases costumam alternar entre corredores de exploração, arenas de combate e momentos de retorno ao abrigo. Esse ritmo é eficiente durante boa parte da campanha, mas começa a mostrar certa previsibilidade na reta final. Ainda assim, o jogo evita se arrastar e mantém um bom fluxo de progressão.

Os chefes são outro destaque. As batalhas contra máquinas maiores exigem domínio do hacking, leitura de padrões e bom uso do arsenal. Elas também ajudam a quebrar a cadência das fases e entregam alguns dos momentos mais intensos da campanha.

O abrigo funciona como uma base de operações onde o jogador pode melhorar equipamentos, interagir com Diana, acessar simulações e organizar a progressão. Essas pausas são importantes porque reduzem o peso da ação constante e reforçam a relação entre os personagens.

Uma aposta experimental que lembra outra era dos shooters

Parte do charme de Pragmata está justamente na forma como ele parece deslocado dentro do mercado atual. Em vários momentos, o jogo remete a uma era de shooters em terceira pessoa mais diretos, com fases bem definidas, arenas de combate, chefes grandes, progressão de equipamentos e uma mecânica central forte o bastante para sustentar toda a campanha.

Essa sensação de “jogo de ação da era Xbox 360” funciona mais como elogio do que como limitação. Pragmata não tenta ser um mundo aberto gigantesco, nem diluir sua proposta em dezenas de sistemas paralelos. Ele sabe exatamente qual é sua ideia principal: colocar o jogador no controle de uma dupla que precisa atirar, desviar, hackear e resolver pequenos puzzles em tempo real no meio do caos.

É uma escolha corajosa da Capcom. O jogo poderia facilmente cair em uma fórmula genérica de ficção científica, mas sua personalidade nasce justamente da confiança em uma mecânica incomum. Pragmata é um título que parece dizer ao jogador: esta é a minha proposta, aceite ou não. E, quando essa proposta encaixa, ela funciona muito bem.

Progressão, upgrades e conteúdo extra

O sistema de progressão de Pragmata é simples, mas eficiente. Melhorias de armas, habilidades de hacking e recursos encontrados nos mapas permitem que o jogador refine seu estilo de combate. A presença de diferentes nodos e possibilidades de combinação dá profundidade suficiente para que o jogador sinta evolução real ao longo da campanha.

O jogo também oferece uma boa quantidade de conteúdo opcional. Coletáveis, simulações de treino, áreas extras e desafios pós-game ampliam a duração sem parecerem completamente desconectados da experiência principal. Para quem busca completar tudo, Pragmata entrega uma jornada satisfatória.

Um ponto positivo é que o próprio jogo oferece ferramentas para ajudar na localização de coletáveis, reduzindo a necessidade de consultar guias externos. Isso torna o processo de exploração mais orgânico e menos cansativo.

O modo pós-game, especialmente os desafios adicionais, funciona como uma boa extensão da campanha. Ele aproveita o sistema de combate em situações mais exigentes e dá motivos reais para continuar jogando após os créditos.

O combate também tem uma qualidade rara: ele exige coordenação mental e mecânica ao mesmo tempo. Enquanto Hugh precisa mirar, se reposicionar, desviar de ataques e aproveitar os pontos fracos dos inimigos, Diana precisa resolver o hacking em tempo real. Isso cria uma tensão constante, porque o jogador nunca está fazendo apenas uma coisa.

Nas melhores batalhas, Pragmata parece trabalhar dois lados do cérebro ao mesmo tempo. Há a pressão física de sobreviver em uma arena cheia de robôs, projéteis e ataques telegrafados, mas também há o raciocínio rápido necessário para encontrar o melhor caminho na grade de invasão. O jogo não trata o hacking como um acessório opcional; ele é a base de toda a dinâmica de combate.

Essa combinação faz com que cada vitória pareça conquistada. Não basta ter boa mira, assim como não basta resolver bem o puzzle. É preciso fazer as duas coisas simultaneamente, sob pressão, e é justamente nesse equilíbrio que Pragmata encontra sua identidade.

Aspectos técnicos e apresentação

Tecnicamente, Pragmata também mostra a força da RE Engine. O jogo apresenta modelos detalhados, boa iluminação, cenários com alto nível de polimento e uma direção visual que sabe usar bem o contraste entre a frieza industrial da base lunar e os momentos mais humanos ligados a Diana.

A decisão de manter Hugh quase sempre dentro do traje espacial também funciona bem. Além de reforçar a sensação de isolamento e perigo constante, isso transforma o protagonista em uma figura mais neutra, enquanto Diana assume o papel mais expressivo da dupla. Suas animações, reações e pequenos gestos são fundamentais para que a personagem ganhe carisma.

Em alguns momentos, Diana pode até parecer levemente artificial ou estranha, mas isso combina com a própria proposta da personagem. Ela não é uma criança comum, e sim uma androide tentando compreender emoções, memórias e experiências humanas. Essa ambiguidade visual ajuda a reforçar sua identidade dentro do universo do jogo.

Dificuldade e desafio

Pragmata consegue ser acessível em sua campanha principal, mas possui um teto de desafio considerável. Em dificuldades mais altas, o jogo exige domínio completo de suas mecânicas. A dificuldade Lunática, em especial, muda bastante a dinâmica da experiência, tornando cada erro muito mais punitivo.

Nesse modo, o posicionamento se torna essencial, os inimigos causam muito mais dano e o jogador precisa usar com inteligência armas, upgrades, habilidades de Diana e janelas de vulnerabilidade. É uma dificuldade que pode parecer exagerada para parte do público, mas que também valoriza quem realmente domina o sistema de combate.

Para jogadores interessados em platina ou 100%, Pragmata oferece um desafio consistente. Não se trata apenas de cumprir uma lista de tarefas, mas de realmente aprender o funcionamento do jogo em um nível mais profundo.

Onde Pragmata poderia ser melhor

Apesar de seus muitos acertos, Pragmata tem limitações claras. A campanha poderia explorar melhor seu universo e seus temas de ficção científica. Há ideias muito boas envolvendo inteligência artificial, fabricação lunar, memórias da Terra e o papel de Diana naquele mundo, mas parte disso fica subdesenvolvida ou dependente de registros opcionais.

A variedade visual também poderia ser maior. Embora existam áreas muito bonitas e criativas, algumas seções internas da base lunar repetem demais a estética de corredores e salas tecnológicas. Isso não compromete a experiência, mas reduz um pouco o impacto da ambientação em determinados trechos.

Outro ponto é que o ritmo das fases segue uma estrutura bastante previsível: exploração, arena, upgrade, chefe e retorno ao abrigo. A fórmula funciona, mas o jogo raramente foge muito dela. Pragmata é mais forte quando aposta em sua mecânica central do que quando tenta surpreender pela estrutura.

Veredito

Pragmata é uma estreia ousada e muito bem-vinda da Capcom. Ele combina a objetividade de um shooter em terceira pessoa mais clássico com uma mecânica de hacking em tempo real que dá identidade própria ao combate. O resultado é um jogo que parece familiar em sua estrutura, mas original na forma como exige que o jogador pense, mire, desvie e resolva problemas ao mesmo tempo.

A ambientação lunar é marcante, a RE Engine entrega uma apresentação visual forte e Diana se torna facilmente o coração da experiência. A relação dela com Hugh funciona melhor quando o jogo permite que ela apareça dentro da gameplay, do abrigo e das pequenas interações, mais do que apenas nas cutscenes.

A narrativa poderia explorar melhor seus temas de ficção científica, e a campanha sofre com certa repetição visual em alguns ambientes internos. Além disso, Pragmata demora um pouco para abrir todo o potencial de seus sistemas. Ainda assim, quando o combate encaixa, poucos jogos recentes entregam uma sensação tão particular.

Pragmata é estranho, criativo, confiante e diferente. Não é apenas mais uma nova IP da Capcom, mas uma franquia com potencial real para crescer. Para mim, foi uma das surpresas mais positivas do ano e uma experiência que merece ser jogada por quem procura ação com personalidade.

Nota: 8,5/10

Pragmata mistura ação em terceira pessoa, hacking em tempo real e ficção científica em uma estreia ousada da Capcom. A história poderia ir mais longe, mas o combate criativo, Diana e a força técnica da RE Engine fazem desta uma nova franquia extremamente promissora.

Agradeço imensamente a Capcom Brasil por conceder a chave para produção de review e conteúdo

Temos guia de platina aqui no nosso site https://levelupnews.com.br/2026/04/18/71240437/

Também produzi um vídeo mostrando toda minha jornada pegando 100% dos troféus do game: https://www.youtube.com/watch?v=Zngh1O3rloA&t=67s

Pragmata é uma ousada nova aposta da Capcom

Pragmata combina ação, hacking e ficção científica em uma estreia criativa da Capcom, com combate envolvente, ótima ambientação lunar e Diana como grande destaque.
8.5
Pragmata entrega uma estreia ousada e criativa da Capcom, com combate hack-and-shoot envolvente, ótima ambientação lunar e Diana como o coração da experiência. A narrativa poderia ir mais longe, mas o conjunto é forte, diferente e muito promissor.