Ubisoft admite possibilidade de vender divisões criativas em meio a crise interna

Ubisoft admite possibilidade de vender divisões criativas em meio a crise interna

Clima entre funcionários piora, novos cortes são confirmados e liderança evita respostas diretas durante reunião interna


A Ubisoft sinalizou que pode vender parte de suas novas divisões criativas caso elas não entreguem os resultados financeiros esperados pela companhia. A informação veio à tona após uma reunião interna da empresa francesa, cuja gravação foi obtida pelo portal Insider Gaming, que também ouviu diversos funcionários sob condição de anonimato. Segundo os relatos, o clima dentro da empresa é descrito como extremamente negativo, com queda acentuada no moral das equipes e crescente insegurança sobre o futuro. Durante o encontro, executivos da Ubisoft teriam evitado responder de forma objetiva às perguntas dos colaboradores, limitando-se a reiterar posições já comunicadas oficialmente, sem apresentar novos esclarecimentos ou garantias. Um dos temas centrais da reunião foi a política de retorno obrigatório ao trabalho presencial, que continua sendo alvo de forte resistência interna. O CEO Yves Guillemot defendeu a decisão afirmando que a medida visa melhorar a colaboração e a eficiência das equipes.

Segundo o executivo, a mudança não foi tomada de forma leviana e estaria alinhada à visão da empresa de que a presença física favorece inovação e velocidade no desenvolvimento. A fala, no entanto, não teria sido suficiente para aliviar a frustração dos funcionários, especialmente diante do contexto de cortes e reestruturações em curso. A diretora de estúdios e portfólio, Marie-Sophie de Waubert, reforçou o discurso da liderança ao afirmar que a percepção da Ubisoft é de que a criatividade se beneficia quando as pessoas trabalham juntas fisicamente. Ela também descartou de forma categórica qualquer possibilidade de adoção de uma semana reduzida de quatro dias no escritório, frustrando expectativas de parte dos funcionários.

Outro ponto sensível abordado foi a continuidade das demissões. O diretor financeiro Frederik Duguet confirmou que novos cortes estão planejados, embora tenha se recusado a divulgar números específicos. Segundo ele, a Ubisoft nunca compartilha estimativas detalhadas publicamente, mas seguirá com “reestruturações pontuais” para redimensionar a organização e reduzir custos. Estimativas internas citadas pelo Insider Gaming indicam que ao menos 200 funcionários na França podem ser afetados, o que amplia ainda mais a percepção de instabilidade entre as equipes, especialmente após uma sequência de cancelamentos de projetos e desligamentos ocorridos nos últimos anos.

Venda de divisões criativas entra no radar

O momento mais delicado da reunião, segundo as fontes, foi a confirmação de que a Ubisoft pode vender uma ou mais de suas cinco casas criativas recentemente criadas. Duguet afirmou que a empresa deseja o sucesso dessas divisões e reconhece que elas não devem ser lucrativas imediatamente. No entanto, deixou claro que, caso os resultados fiquem abaixo das expectativas por tempo prolongado, a venda é uma opção real. De acordo com o executivo, qualquer decisão desse tipo seria tomada apenas se considerada positiva para a divisão envolvida ou para a Ubisoft dentro de sua visão estratégica de longo prazo. Ainda assim, a declaração reforçou a sensação de que nem mesmo essas novas estruturas, criadas como parte de uma tentativa de reorganizar a empresa, estão protegidas de medidas mais drásticas.

Em meio a esse cenário, a insatisfação extrapolou o ambiente interno e chegou ao campo político e sindical. Representantes sindicais da Ubisoft já solicitaram formalmente a renúncia de Yves Guillemot do cargo de CEO, alegando falhas de gestão, perda de confiança e deterioração das condições de trabalho. A combinação de retorno presencial forçado, novos cortes, incerteza sobre o futuro das divisões criativas e falta de comunicação clara com os funcionários coloca a Ubisoft em um dos momentos mais delicados de sua história recente. Para muitos colaboradores, a promessa de renovação criativa feita pela empresa começa a soar incompatível com as decisões estratégicas adotadas atualmente.