Microtransações já rendem mais que jogos completos e explicam a insistência da Sony em GAAS

Microtransações já rendem mais que jogos completos e explicam a insistência da Sony em GAAS

Relatório financeiro mostra que compras dentro dos jogos superaram a soma das vendas físicas e digitais no último trimestre


Nos últimos anos, praticamente todas as grandes publishers passaram a perseguir o mesmo objetivo: emplacar ao menos um jogo como serviço capaz de gerar receita recorrente. A Sony seguiu esse caminho com força, mesmo após cancelamentos, projetos problemáticos e críticas públicas à estratégia. Títulos futuros como Marathon e o recém-anunciado Horizon Hunters Gathering mostram que a empresa continua apostando no modelo e os números ajudam a entender o porquê. O relatório financeiro mais recente da Sony, referente ao trimestre encerrado em dezembro de 2025, trouxe um dado difícil de ignorar. A receita obtida com microtransações na PlayStation Network superou a soma das vendas de jogos completos, considerando tanto formatos físicos quanto digitais.

No período, a divisão de games da Sony registrou ¥835,477 milhões em receita de software, o equivalente a aproximadamente US$ 5,3 bilhões. Desse total, ¥418,093 milhões vieram exclusivamente de microtransações. Na prática, mais da metade do faturamento de software da empresa no trimestre foi gerada por compras dentro dos jogos, como cosméticos, passes de batalha, moedas virtuais e conteúdos adicionais.

Receita recorrente e diluição de risco

Esse dado ajuda a contextualizar a insistência da Sony em jogos como serviço, mesmo após experiências frustrantes. Em um cenário no qual orçamentos de jogos AAA ultrapassam facilmente a casa das centenas de milhões de dólares, um único fracasso pode comprometer estúdios inteiros ou forçar reestruturações profundas. Um GAAS bem-sucedido, por outro lado, oferece receita previsível ao longo de anos e reduz a dependência de grandes lançamentos pontuais. Do ponto de vista corporativo, microtransações funcionam como uma forma de diluir risco financeiro, mantendo fluxo constante de caixa mesmo quando o calendário de lançamentos tradicionais é mais fraco. Isso explica por que, apesar de cancelar projetos e rever planos, a Sony não abandonou a estratégia, apenas passou a ser mais seletiva. O paradoxo é claro. Ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais difícil lançar um multiplayer duradouro, o modelo continua sendo o mais lucrativo da indústria.

A concorrência é feroz, o tempo do jogador é limitado e poucos títulos conseguem se manter relevantes por anos. Ainda assim, quando um jogo como serviço funciona, os retornos superam com folga a venda tradicional de jogos completos. Os números do último trimestre deixam isso evidente. Cosméticos, passes e conteúdos adicionais não apenas complementam a receita, eles já superam o modelo clássico de venda de jogos. É um sinal claro de como o comportamento do consumidor mudou e de por que grandes empresas continuam perseguindo esse formato, mesmo com riscos elevados. A insistência da Sony em GAAS, portanto, não é teimosia criativa, mas uma resposta direta à realidade financeira do setor. O desafio não está em entender por que a empresa aposta nisso, mas em conseguir repetir o sucesso em um mercado cada vez mais competitivo e saturado.