Playground Games detalha mudança estrutural na franquia, explica origem do projeto fora de Forza Horizon e reforça lançamento multiplataforma em 2026.
O novo Fable marcará uma ruptura importante com um dos pilares mais tradicionais da franquia. A Playground Games confirmou que o RPG deixará para trás o sistema binário de moralidade, baseado em escolhas claramente “boas” ou “más”, para adotar uma abordagem mais subjetiva, contextual e regional, alinhada com tendências modernas do gênero e com uma visão mais realista de como valores morais funcionam no mundo atual. Em entrevista ao GamesRadar+, Ralph Fulton, gerente geral da Playground Games, explicou que a decisão nasceu de uma reflexão crítica sobre a própria evolução dos videogames e da sociedade. Segundo ele, a ideia de uma moralidade universal simplesmente não se sustenta mais.
“Quando olhamos para o mundo, não existe um bem objetivo, não existe um mal objetivo. Não há nada que você possa fazer que una todas as pessoas na crença de que aquilo é definitivamente bom ou mau. Tudo é subjetivo e isso é realmente interessante”, afirmou Fulton.
Essa filosofia se traduz diretamente na jogabilidade. Em vez de uma barra de moralidade que sobe ou desce conforme as decisões do jogador, Fable passará a utilizar um sistema de reputação local, no qual cada ação impacta de forma diferente as regiões e comunidades de Albion. Cada vilarejo, cidade ou assentamento reagirá ao jogador de acordo com seus próprios valores, crenças e experiências. Um comportamento admirado em uma região pode ser visto como repulsivo em outra, criando múltiplas leituras morais simultâneas e consequências menos previsíveis.
“Seguimos uma abordagem muito mais em tons de cinza. As coisas que você faz são simplesmente as coisas que você faz. Se fizer isso o suficiente, ou se pessoas suficientes virem você fazendo essas ações, você construirá uma reputação naquele local específico”, explicou Fulton.
Reações mais granulares e identidade social dinâmica
Essa mudança aproxima Fable de RPGs contemporâneos que abandonaram sistemas morais simplistas. Enquanto títulos como Mass Effect trabalhavam com uma moralidade linear (Paragon vs. Renegade), jogos mais recentes como Dragon Age: Inquisition e The Witcher 3 priorizam reações específicas de personagens, facções e comunidades. No caso de Fable, os habitantes de Albion funcionarão quase como um “coro grego”, comentando abertamente as atitudes do jogador. NPCs poderão vaiar, elogiar, temer ou idolatrar o protagonista em público, reforçando a sensação de que o mundo observa e julga constantemente suas ações.
“Da maneira clássica de Fable, eles dizem exatamente o que pensam sobre você e sobre as coisas que você fez”, acrescentou Fulton, destacando que o humor e a personalidade da série continuam intactos, mesmo com a abordagem mais madura.
O resultado será a possibilidade de construir múltiplas identidades sociais ao longo do jogo, incentivando experimentação e rejogabilidade. Um jogador pode ser visto como herói em uma região e como vilão em outra, sem que o jogo dite qual dessas leituras é a “correta”. Além do novo sistema de moralidade, Fulton também comentou sobre a origem do projeto e como um estúdio mundialmente conhecido por Forza Horizon decidiu assumir uma das franquias de RPG mais queridas do Xbox. Segundo ele, as primeiras conversas sobre criar algo além dos jogos de corrida começaram logo após o lançamento de Forza Horizon 3. Apesar do enorme sucesso da franquia, a liderança do estúdio sentiu a necessidade de se desafiar criativamente.
“A conversa sobre construir um segundo time era sobre querer nos desafiar, aprender e crescer como desenvolvedores. Queríamos ver se conseguiríamos criar um jogo em um gênero completamente diferente”, explicou.
Inicialmente, o projeto não era Fable. No entanto, ao analisar suas principais competências, design de mundo aberto, tecnologia de streaming, criação de ambientes vivos e densos, a equipe percebeu que essas habilidades se encaixavam perfeitamente com a proposta da franquia.
“Não lembro quem mencionou Fable primeiro, mas quando ouvi o nome, fiquei convencido imediatamente. Simplesmente adoramos essa série aqui. A promessa de construir uma nova equipe para fazer Fable parecia a combinação perfeita”, relembrou Fulton.
Um retorno aguardado após quase uma década
A franquia Fable está adormecida desde o cancelamento de Fable Legends, em 2016, e o novo projeto carrega tanto expectativas quanto riscos. Trata-se de um estúdio estreante no gênero RPG lidando com uma marca extremamente querida, conhecida por seu humor britânico, escolhas morais e mundo reativo. Após mais de cinco anos desde o anúncio oficial, o jogo teve sua primeira apresentação mais substancial durante o Xbox Developer Direct, reforçando que o desenvolvimento entrou em uma fase mais avançada. O lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026, com versões confirmadas para PC, Xbox Series S|X, Xbox Game Pass e, de forma inédita para a franquia, PlayStation 5. A aposta da Playground Games é clara: modernizar Fable sem descaracterizá-lo, trocando sistemas simplistas por camadas mais profundas de consequência, reputação e identidade social. Se a execução acompanhar a ambição, a série pode retornar não apenas como um clássico revivido, mas como um RPG relevante para a nova geração.
