Criador de Resident Evil 2 admite incapacidade de jogar o novo capítulo da Capcom e sugere, em tom de desabafo, a criação de modos de jogo focados apenas em combate e puzzles.
O impacto visceral de Resident Evil Requiem atingiu um patamar de intensidade que parece desafiar até mesmo os arquitetos que estabeleceram as bases do gênero survival horror. Hideki Kamiya, figura central na história da Capcom e diretor do aclamado Resident Evil 2 (1998), admitiu publicamente sua vulnerabilidade diante da nova obra da desenvolvedora japonesa. Em uma demonstração de honestidade rara na indústria, Kamiya revelou que o nível de tensão e o design de horror de Requiem são elevados demais para sua sensibilidade atual, chegando a solicitar formalmente que as equipes de desenvolvimento considerem a implementação de um “modo não assustador” em produções futuras. O relato surgiu de forma orgânica através de um registro audiovisual no canal oficial do Clovers, o novo estúdio independente fundado pelo lendário designer. No vídeo, enquanto seus colegas de equipe exploram as áreas abertas e os ambientes claustrofóbicos de Requiem, Kamiya mantém-se afastado do controle, justificando sua decisão com uma análise que mistura humor e autocrítica.
“Sempre disse que deveriam criar um modo não assustador”, declarou o desenvolvedor, reconhecendo prontamente a natureza paradoxal da proposta: “Isso destruiria efetivamente todo o conceito do jogo, mas permitiria que pessoas como eu pudessem aproveitá-lo. Eu só quero curtir os puzzles e os combates, não preciso ficar com medo”.
A fala de Kamiya carrega uma ironia histórica profunda que ressoa em todo o mercado de games. Como o homem que ajudou a definir o pânico cinematográfico na era de 32 bits, sua “rendição” ao terror moderno de Requiem serve como um selo de qualidade involuntário para a infraestrutura de horror da Capcom em 2026. A evolução do hardware, especialmente no uso de iluminação volumétrica e processamento de áudio 3D, elevou a imersão a um nível que transforma a experiência de jogo em um teste de resistência psicológica, algo que difere drasticamente das limitações técnicas que Kamiya enfrentou ao criar o Mr. X décadas atrás. O que muda a partir dessa declaração é a discussão sobre a democratização do conteúdo: o debate entre preservar a pureza artística do horror e oferecer opções de acessibilidade para jogadores que buscam a mecânica de jogo sem o desgaste emocional do susto.
Enquanto Resident Evil Requiem continua a testar os limites do público e da crítica, Kamiya redireciona suas energias criativas para o Clovers, onde lidera o desenvolvimento do aguardado Okami Sequel. O projeto, que resgata a estética mitológica japonesa e o estilo artístico de sumi-e, representa um retorno às raízes de aventura e exploração visual que consagraram o autor fora do espectro do horror. Embora os detalhes sobre a sequência de Okami permaneçam escassos, o contraste entre o pavor de Requiem e a delicadeza visual de seu novo projeto reforça a versatilidade de um profissional que, mesmo após trinta anos, continua a interpretar as tendências da indústria sob uma ótica estritamente humana.
