O ex-diretor de Assassin’s Creed e Far Cry analisa como o êxodo de veteranos e a rejeição a projetos experimentais transformaram a gigante francesa em uma estrutura dependente de sequências.
A Ubisoft, outrora celebrada como a vanguarda do mundo aberto e da inovação em larga escala, atravessa um dos períodos mais críticos de sua história. Para Alex Hutchinson, ex-diretor criativo de sucessos como Far Cry 4 e Assassin’s Creed 3, a atual turbulência da empresa, marcada por demissões em massa e instabilidade financeira, é o resultado direto de uma mudança drástica em sua cultura corporativa. Em entrevista ao PC Gamer, Hutchinson revelou que o modelo de desenvolvimento que antes permitia autonomia e experimentação foi substituído por uma postura “alérgica a novidades”. O desenvolvedor, que deixou a companhia para fundar a Typhoon Studios, argumenta que a perda sistemática de talentos veteranos para o setor independente e a pressão por retornos financeiros imediatos sufocaram a capacidade da Ubisoft de renovar seu portfólio.
O caso Pioneer e o custo da estagnação
A análise de Hutchinson destaca o cancelamento do projeto Pioneer como um divisor de águas simbólico para a empresa. O título, um simulador espacial ambicioso que buscava competir com a premissa de No Man’s Sky, chegou a ser provocado internamente em Watch Dogs 2, mas foi descartado pela diretoria por ser considerado “experimental demais”. Segundo Hutchinson, esse padrão de rejeição a ideias inéditas forçou a Ubisoft a uma dependência perigosa de suas marcas estabelecidas. Embora a série Assassin’s Creed mantenha uma cadência de lançamentos com Valhalla, Mirage e Shadows, o vácuo deixado por franquias como Far Cry (sem novos títulos desde 2021) e o fracasso comercial de novas IPs de alto custo, como Immortals Fenyx Rising, evidenciam uma incapacidade de equilibrar o orçamento de produção com o risco criativo necessário para sustentar o crescimento a longo prazo.
Além do fator criativo, Hutchinson apontou que a Ubisoft sofreu para realizar a transição completa de uma empresa de produtos físicos para uma entidade puramente digital e de serviços. Essa “mentalidade tradicional” retardou a adaptação do estúdio às flutuações rápidas do mercado moderno, onde a retenção de jogadores é tão vital quanto a venda inicial. Analiticamente, a situação da Ubisoft em 2026 reflete um problema estrutural: a empresa tornou-se grande demais para arriscar, mas não possui IPs de serviço o suficiente para manter a receita estável sem lançamentos constantes. Para Hutchinson, o fôlego criativo da marca só será recuperado através de uma transformação profunda na liderança, que permita que o “sangue novo” da empresa tenha a mesma liberdade que os veteranos desfrutavam na década passada.
