Após declarações sobre a adoção de inteligência artificial no novo Divinity, ex-desenvolvedores contestam o discurso oficial da Larian e levantam questionamentos sobre a tecnologia no processo criativo
A Larian Studios, conhecida mundialmente por Baldur’s Gate 3 e atualmente trabalhando no novo título da série Divinity, se viu no centro de uma polêmica ligada ao uso de inteligência artificial em seu processo de desenvolvimento. O estopim foi uma entrevista recente em que o CEO e diretor de estúdio, Swen Vincke, admitiu que ferramentas de IA seriam integradas em fases iniciais da criação dos jogos, como para esboçar ideias, gerar textos provisórios e criar arte conceitual preliminar — desencadeando um acalorado debate nas redes sociais e entre profissionais da indústria.
Segundo Vincke, o uso desse tipo de tecnologia faz parte do fluxo de trabalho do estúdio e a equipe estaria “mais ou menos de acordo” com essa direção. Ele enfatizou que nenhum conteúdo gerado por IA deve aparecer no produto final, defendendo o uso da tecnologia apenas como ferramenta de suporte criativo.
Ex-funcionários rebatem discurso oficial
A afirmação de que todos no estúdio estariam confortáveis com a abordagem da IA não caiu bem entre alguns ex-colaboradores da Larian. Anne Méthot, que atuou por quatro anos na equipe de controle de qualidade, declarou publicamente que Vincke estaria “mentindo” ao sugerir unanimidade interna sobre o tema. Segundo ela, nem todos os funcionários concordavam com a estratégia adotada.
Outra ex-membro da equipe, Selena Tobin, que trabalhou como artista júnior de ambientes 3D, também se posicionou com firmeza: ela afirmou que adorava trabalhar na Larian até a introdução da IA, pedindo que a empresa repensasse sua direção e “mostrasse respeito” pelos colaboradores, especialmente ressaltando que os desenvolvedores humanos já demonstraram repetidas vezes sua capacidade de criar conteúdo excelente sem depender de IA.
Tobin ainda ressaltou que os talentos da equipe são suficientemente capazes de gerar ideias extraordinárias por conta própria, sugerindo que a tecnologia pode estar sendo usada de forma prematura ou sem consenso interno.
Repercussão maior na indústria
A discussão se espalhou rapidamente, inclusive com reações de outros profissionais do setor. Daniel Vávra, cofundador da Warhorse Studios (Kingdom Come: Deliverance), defendeu publicamente a Larian, descrevendo a reação negativa como uma “histeria da IA” e argumentando que praticamente todos os estúdios já utilizam alguma forma de inteligência artificial em seus processos. Ele frisou que a tecnologia pode automatizar tarefas repetitivas, liberando mais tempo e foco para os aspectos criativos do desenvolvimento.
Ainda assim, a polêmica aponta para um cenário mais amplo: muitos jogadores e profissionais questionam os impactos éticos e criativos da adoção de IA, especialmente em estúdios reconhecidos por trabalhos altamente artesanais. Alguns temem que a tecnologia possa corroer oportunidades para talentos emergentes ou desvalorizar o papel humano na narrativa e no design, um debate que vai muito além da Larian e já movimenta toda a indústria de games.
O que a Larian diz e o que vem por aí
Até o momento, a Larian mantém a posição de que o uso de IA está restrito às fases iniciais de desenvolvimento e que o conteúdo final dos jogos continuará sendo criado por artistas, roteiristas e desenvolvedores humanos. A empresa também segue trabalhando em um segundo projeto além de Divinity, embora detalhes sobre esse título ainda não tenham sido divulgados.
Essa controvérsia sinaliza um momento de transição e reflexão na indústria de jogos, em que as promessas de eficiência e inovação trazidas pela IA se chocam com preocupações sobre criatividade humana, ética no ambiente de trabalho e o futuro do desenvolvimento artístico.
Fonte: GamesRadar
